4. BRASIL 4.9.13

1. O NOBRE COLEGA PRESIDIRIO
2. ONDA DE SUICDIOS ASSUSTA
3. A RECONSTRUO POLTICA DE DILMA
4. PF ENTRA NO TRILHO
5. A ESCAPADA PELOS ANDES

1. O NOBRE COLEGA PRESIDIRIO
Condenado a 13 anos de cadeia, Natan Donadon saiu da priso para ser absolvido na Cmara. Com a deciso de preservar o mandato do colega, os parlamentares submeteram o Brasil a um vexame histrico e criaram precedentes para salvar mensaleiros
Josie Jeronimo

SALVO - No plenrio, o deputado Natan Donadon se ajoelha (acima) aps a absolvio: No sou ladro, jurou. O parlamentar deixou a Cmara  algemado (abaixo) rumo ao presdio da Papuda, em Braslia

Com bottom de parlamentar, terno bem alinhado e algemas, o deputado Natan Donadon deixou a Cmara dos Deputados na noite de quarta-feira 28 do mesmo modo que entrou: como um inusitado detento com mandato parlamentar. Durante a votao do pedido de sua cassao, muitos colegas no se preocuparam com sua ficha corrida, que inclui a condenao pelo desvio de R$ 8,4 milhes da Assembleia Legislativa de Rondnia, de 1995 a 1998, quando era diretor financeiro da instituio. O rosto abatido e as lamentaes da vida de presidirio que rechearam o discurso de Donadon comoveram parte do plenrio, naquela altura j contaminado pelo esprito de corpo. O conforto covarde do sigilo do voto serviu como mais um estmulo para que centenas de colegas se sentissem ainda mais  vontade para salvar o mandato do parlamentar, que cumpre pena na Penitenciria da Papuda, Distrito Federal, h dois meses. No total, foram 233 votos pela cassao, 24 a menos do que o exigido, 131 pela absolvio e 41 abstenes, sendo o PT o partido que mais contribuiu com as ausncias, (21 no total). O resultado, alm de representar uma afronta  sociedade, no rastro das manifestaes populares, sugere a inteno de se preservar os mandatos de condenados no processo do mensalo.

A salvao de Donadon foi costurada duas horas antes da votao em plenrio. Deputados do PDT, PMDB e PT se mobilizaram para espalhar entre os colegas a tese de que tirar o mandato de Donadon significava admitir que o Supremo Tribunal Federal (STF) estava certo ao decretar o destino poltico dos rus do mensalo. No vote pela cassao. Ns somos mais importantes do que o Supremo, apelava o deputado Nilton Capixaba (PTB-RO), aos colegas. Outro importante cabo eleitoral de Donadon foi Srgio Moraes (PTB-RS), que em 2009 cunhou a polmica frase Estou me lixando para a opinio pblica. Demais parlamentares investigados em processos de corrupo  como Joo Pizzolatti (PP-SC)  tambm tentavam convencer os deputados a absolver Donadon, com o mesmo argumento da briga entre os Poderes. Mas houve quem tambm levasse em conta fatores sentimentais. As parlamentares mulheres, por exemplo, pareciam tocadas com a presena da famlia de Donadon em plenrio e admitiam ter dificuldades em ape-lo do cargo. Assim, somente as bancadas do PSDB, DEM, PPS, PSB e PSD declararam apoio  cassao de Donadon.  um constrangimento tomar posio em uma situao dessas,  um colega. Com certeza, se o voto fosse aberto, seria outro placar. O parlamentar chega l, muito abatido, cumprimenta todo mundo. No  bom ver ningum nessa situao, admitiu o deputado Capixaba.

Placar da impunidade
Com a manuteno do mandato, Donadon no receber vencimentos da Cmara, mas na priso ter privilgio de uma cela em rea reservada, longe dos detentos comuns. Aparentando irritao, o presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), disse que s submeter ao plenrio novas decises sobre perda de mandato depois que a PEC 20 de 2013, que acaba com o voto secreto e est em tramitao no Senado, for votada. Realista, o deputado Moreira Mendes (PSD-RO) teme ser agredido nas ruas aps a absolvio de Donadon. Agora ficou uma mancha sobre os 513 deputados. Vamos ter que pagar a pena junto com ele. Atiraram no p. J somos a pior instituio na avaliao popular. Isso  um desastre.  mesmo. Donadon saiu de camburo, algemado, do presdio da Papuda, para onde voltou na mesma situao aps se livrar da cassao. Ele deixou a Cmara agradecendo a Deus pelo resultado. Mas quem o salvou foram os prprios colegas, que de santos no tm nada.


2. ONDA DE SUICDIOS ASSUSTA
Em um ano, 11 agentes da PF tiraram a prpria vida. Atualmente, policiais morrem mais por suicdio do que durante combate ao crime. Conhea as possveis causas desse cenrio dramtico
Josie Jeronimo e Izabelle Torres

DRAMA - Em 40 anos, 36 policiais federais perderam a vida no cumprimento da funo.  Um tero desse total morreu por suicdio apenas entre 2012 e 2013

Vista do lado de fora, a Polcia Federal  uma referncia no combate  corrupo e ainda representa a elite de uma categoria cada vez mais imprescindvel para a sociedade. Vista por dentro, a imagem  antagnica. A PF passa por sua maior crise interna j registrada desde a dcada de 90, quando comeou a ganhar notoriedade. Os efeitos disso no esto apenas na queda abrupta do nmero de inquritos realizados nos ltimos anos, que caiu 26% desde 2009. Esto especialmente na triste histria de quem precisou enterrar familiares policiais que usaram a arma de trabalho para tirar a prpria vida. Nos ltimos dez anos, 22 agentes da Polcia Federal cometeram suicdio, sendo que 11 deles aconteceram entre maro de 2012 e maro deste ano: quase um morto por ms. O desespero que leva o ser humano a tirar a prpria vida mata mais policiais do que as operaes de combate ao crime. Em 40 anos, 36 policiais perderam a vida no cumprimento da funo. Para traar o cenrio de presses e desespero que levou policiais ao suicdio, ISTO conversou com parentes e colegas de trabalho dos mortos. O teor dos depoimentos converge para um ponto comum de presso excessiva e ambiente de trabalho sem boas perspectivas de melhoria.

FALTA DE ESTRUTURA - Agentes trabalham amordaados em protesto contra condies desumanas de trabalho

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Braslia (UnB) no ano passado mostrou que por trs do colete preto, do distintivo, dos culos escuros e da mstica que transformou a PF no cone de polcia de elite existe um quatro grave. Depresso e sndrome do pnico so doenas que atingem um em cada cinco dos nove mil agentes da Polcia Federal. Em um dos itens da pesquisa, 73 policiais foram questionados sobre os motivos das licenas mdicas. Nada menos do que 35% dos entrevistados responderam que os afastamentos foram decorrentes de transtornos mentais como depresso e ansiedade. O grande problema  que os agentes federais se submetem a um regime de trabalho militarizado, sem que tenham treinamento militar para isso. Acreditamos que o problema est na estrutura da prpria polcia, diz uma das pesquisadoras da UnB, a psicloga Fernanda Duarte.

 O drama dos familiares dos policiais que se suicidaram est distribudo nos quatro cantos do Pas. A ltima morte registrada em 2013 ainda causa espanto nas superintendncias de Roraima, onde Lcio Mauro de Oliveira Silva, 38 anos, trabalhou entre dezembro do ano passado e maro deste ano. Mauro deixou a noiva no Rio de Janeiro para iniciar sua vida de agente da PF em Pacaraima, cidade a 220 quilmetros de Boa Vista. Nos 60 dias em que trabalhou como agente da PF, usou o salrio de R$ 5 mil lquidos para dar entrada em financiamento de uma casa e um carro. O sonho da nova vida acabou com um tiro na boca, na frente da noiva. Cinco meses se passaram desde a morte de Mauro e o corao de sua me, Olga Oliveira Silva, permanece confuso e destroado. A Federal sabia que ele no tinha condies de trabalhar na fronteira. Meia hora antes de morrer, ele me ligou e disse: Mainha, eu amo a senhora. Perdoa eu ter vindo pra c sem ter me despedido.

Relatos de colegas de Mauro do conta que ele chegou a sofrer assdio moral pela pouca produtividade, situao mais frequente do que se poderia imaginar. Como ele, cerca de 50% dos agentes federais j chegaram a relatar casos de assdio praticados por superiores hierrquicos. Essas ocorrncias, aliadas a fatores genticos,  formao de cada um e  falta de perspectivas profissionais, so tratadas por especialistas como desencadeadoras dos distrbios mentais. A forma como a estrutura da polcia est montada tem causado sofrimento patolgico em parte dos agentes. H dificuldades para enfrentar a organizao hierrquica do trabalho. As pessoas, na maioria das vezes, sofrem de sentimentos de desgaste, inutilidade e falta de reconhecimento. No  difcil fazer uma ligao desse cenrio com as doenas mentais, afirma Dayane Moura, advogada de trs famlias de agentes que desenvolveram doenas psquicas.

Os distrbios mentais e a ocorrncia de depresso em policiais so geralmente invisveis para a estrutura da Polcia Federal. De acordo com o Sindicato dos Policiais do Distrito Federal, h apenas cinco psiclogos para uma corporao de mais de dez mil pessoas. No h vagas para consultas e tampouco acompanhamento dos casos. Foi nessa obscuridade que a doena do agente Fernando Spuri Lima, 34 anos, se desenvolveu. Quando foi encontrado morto com um tiro na cabea, em julho do ano passado, a Polcia Federal chegou a cogitar um caso de vingana de bicheiros, uma vez que ele tinha participado da Operao Monte Carlo. Dias depois, entretanto, descobriu-se que Spuri enfrentava uma depresso severa h meses. O pai do agente, Fernando Antunes Lima, reclama da falta de estrutura para um atendimento psicolgico no departamento de polcia. Os chefes esto esperando quantas mortes para tomar uma ao? Isso  desumano e criminoso, diz ele. 

 O drama de quem perdeu um familiar por suicdio no se limita aos jovens na faixa dos 30 anos. Faltavam dois anos para nio Seabra Sobrinho, baseado em Belo Horizonte, se aposentar do cargo de agente da Polcia Federal. Com histrico de transtorno psicolgico, o policial j havia comunicado  chefia que no se sentia bem. Solicitou, formalmente, ajuda. Em resposta, a PF mandou dois agentes  sua casa para confiscar sua arma. Seabra foi ento transferido para o planto de 24 horas, quando o policial realiza funes semelhantes s de um vigia predial. A misso  considerada um castigo, pois no exige qualquer treinamento. No dia 14 de outubro de 2012, Seabra se matou, aos 49 anos. Apesar de estar perto da aposentadoria, a famlia recebe penso proporcional com valor R$ 2 mil menor do que os vencimentos do agente, na ativa.

Fruto de uma especial combinao de fatores negativos, internos e externos, o suicdio nunca foi uma tragdia de fcil explicao para a rea mdica nem para estudiosos da vida social. Lembrando que toda sociedade, em qualquer poca, tem como finalidade essencial defender a vida de seus integrantes, o socilogo mile Durkheim (1858-1917) demonstrou que o suicdio  a expresso mais grave de fracasso de uma comunidade e que raramente pode ser explicado por uma razo nica. Ainda que seja errado apontar para responsabilidades individuais, a tragdia chegou a um nvel muito grande, o que cobra uma resposta de cada parcela do Estado brasileiro que convive com esse drama.


3. A RECONSTRUO POLTICA DE DILMA
A dez meses da campanha, com a popularidade em alta e programas bem-aceitos, a presidenta tenta iniciar uma nova relao com o Congresso e a sociedade
Paulo Moreira Leite

REFAZENDO A PONTE - Na tera-feira 27, Dilma foi pela terceira vez ao Congresso desde a posse. Tirou fotografias, conversou com parlamentares e at cumprimentou integrantes do chamado baixo clero

Nem todo mundo no Planalto quer admitir, mas est em curso no governo a reconstruo poltica da presidenta Dilma Rousseff. Atingida em cheio pelos protestos de junho, quando sua aprovao foi abalada nas ruas, caindo 30 pontos, a presidenta exibe 90 dias depois a sade de um paciente que saiu da UTI, recebeu alta dos mdicos e voltou para casa. Ningum acredita que um dia ela voltar a exibir os ndices espetaculares de  maro, quando o governo era aprovado por 63% dos brasileiros e a popularidade de Dilma chegou a 77% , recorde jamais igualado por qualquer antecessor, nem Luiz Incio Lula da Silva. Mas, de acordo com o mais recente levantamento do DataFolha, Dilma saltou seis pontos nas  pesquisas de inteno de voto e chegou a 36% das preferncias para 2014. No Ibope,  a presidenta est com 38% das intenes de voto. Pesquisas internas, encomendadas pelo prprio PT,  apontam para 41%. 

 Apurou-se outra novidade nesse levantamento interno. Entre aquela presidenta que enfrentou as maiores e mais agressivas mobilizaes de rua depois da democratizao do Pas e a chefe de Estado que na semana passada se encontrava s voltas com a crise no Itamaraty, consolidou-se uma personalidade poltica com luz prpria, menos dependente de seu padrinho, o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva. Entre petistas graduados, que tiveram acesso aos dados completos da pesquisa, acredita-se que Dilma recolhe, em 2013, os frutos de uma postura de prezar valores ticos que assumiu desde o incio do governo, quando declarou sua rejeio aos malfeitos e promoveu faxinas para afastar auxiliares suspeitos. Motivo de tantas crticas entre aliados do governo, a lendria rejeio de Dilma pelas barganhas promscuas do Congresso tambm ajudou a presidenta a identificar-se com manifestantes que protestaram para sublinhar seu inconformismo.

ALAVANCA - O Programa Mais Mdicos contribuiu para o crescimento de Dilma nas pesquisas para 2014

Lembrando as crticas que Dilma recebeu depois que apareceu na tev para defender medidas como a reforma poltica e o plebiscito, hoje apoiadas por mais de 80% da populao, e o Mais Mdicos, projeto que levantou polmica em sua fase inicial, mas, aos poucos, conquistou  sustentao junto  maioria da populao, o senador Delcdio Amaral (PT-MS), um dos principais interlocutores da presidenta, repara a ironia dessa situao. A maioria dos polticos costuma dizer que  preciso ficar longe das crises para no se contaminar. Falam que no se deve trazer problemas para o colo. Todos fizeram isso, menos a presidenta, que foi atrs de solues. Enquanto ela cresceu, os adversrios sumiram. 

Nem tudo se resume a uma orientao poltica adequada. A presidenta, na verdade, arregaou as mangas para ir atrs do eleitor naqueles lugares em que ele se mostrava mais arredio. No ltimo ms, reservou trs dias da semana para viagens para So Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde as pesquisas demonstraram que os protestos causaram estrago maior. Num comportamento inspirado, segundo auxiliares, no espetculo de simplicidade apresentado pelo papa Francisco na visita ao Pas, em duas oportunidades a presidenta afastou-se da equipe de seguranas para caminhar  solta entre a multido das ruas. Fez isso em So Paulo, antes de visitar a sede de uma central sindical, e repetiu o comportamento em Belo Horizonte, na semana passada, quando percorreu locais que frequentava na juventude. Convencida de que no ter nada a ganhar caso venha a exibir um comportamento excessivamente tolerante no Congresso, mas ter muito a perder em demonstraes fteis de hostilidade em relao a senadores e deputados, nas ltimas semanas Dilma cumpriu uma agenda parlamentar mais recheada do que em seus dois anos e oito meses de mandato presidencial. Realizou trs reunies com lideranas da Cmara e trs no Senado. Na semana passada, quando soube que uma comisso de parlamentares pretendia marcar uma audincia no Planalto para lhe entregar as concluses da CPMI sobre a Violncia Domstica, Dilma inverteu os papis. Decidiu que ela iria ao Congresso, em vez de o Congresso ir at ela. Foi a  terceira visita  Casa desde a posse, mas foi a mais cordial. Acolhedora, Dilma tirou fotografias, conversou com parlamentares no caminho e at cumprimentou integrantes do baixo clero, afirma um deles.  bem verdade que, um dia depois dos afagos, a cpula do Congresso  leia-se a dupla Henrique Eduardo Alves, presidente da Cmara, e Renan Calheiros, do Senado  apresentou propostas desagradveis ao Planalto, como a de ampliar a fiscalizao de comisses da Casa sobre projetos do governo federal. Mas Dilma parece estar de olho bem aberto para eventuais traies. E, neste novo momento da interlocuo com o Congresso, saber a hora de pagar e cobrar suas faturas polticas.

FAVORITISMO - A senadora Ana Amlia Lemos (PP-RS) no vota em Dilma, mas acredita que a presidenta s perde a eleio para ela mesma

Uma das mais ativas adversrias do governo no Congresso, a senadora Ana Amlia (PP-RS) reconhece a recuperao de Dilma e admite que a presidenta atravessa um novo e importante momento. Para Ana, o cenrio que se desenha ameaa recriar uma situao poltica que o Pas j viu outra vez. Como existem adversrios envolvidos na luta interna, como o PSDB, e os que enfrentam problemas para viabilizar a candidatura no TSE, como Marina Silva, no momento Dilma est sozinha no cenrio, de novo. A oposio no aparece, avalia a senadora. Mesmo fazendo questo de dizer eu no  voto nela, Ana Amlia lembra que Dilma s perde para ela mesma. 

A presidenta  pode perder para a economia tambm. O governo enfrenta as intempries de uma crise internacional que lana dvidas e incertezas sobre as oportunidades oferecidas  maioria dos pases de economia mdia para cima, como o Brasil. Mas Dilma tem direito a festejar os meses recentes, quando, para desmentir o alarmismo de tantos adversrios, a inflao caiu para um patamar prximo de zero, o que tambm vitamina a aprovao de qualquer governo.  Com o auxlio de medidas cuidadosas, o desemprego se mantm no patamar mais baixo da histria. Marcados para os prximos meses, os leiles do pr-sal, de ferrovias e estradas oferecem ao governo vrias oportunidades reais para atrair investimentos de porte. Resta saber se o governo ir cumprir sua parte, oferecendo regras e condies para interessar os investidores em vez de criar normas burocratizadas e pouco convidativas que possam afugent-los. 


4. PF ENTRA NO TRILHO 
Polcia Federal vai investigar contratos do Metr de So Paulo, denunciados por ISTO, que j foram analisados pelo Tribunal de Contas e somam R$ 11 bilhes
Alan Rodrigues, Pedro Marcondes de Moura e Srgio Pardellas

Passava das 14h da quinta-feira 29 quando agentes da Polcia Federal entraram no edifcio do Tribunal de Contas do Estado de So Paulo, centro da capital paulista, e subiram ao quinto andar em busca de documentos relacionados  formao de cartel de empresas ligadas ao transporte sobre trilhos em So Paulo. A ao policial teve como foco 21 contratos com indcios de irregularidades, de acordo com pessoas ligadas  investigao e ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econmica). Os negcios, em valores corrigidos, somam cerca de R$ 11 bilhes. Cinco j foram julgados irregulares pelo Tribunal de Contas. J trs, estimados em R$ 6,3 bilhes, nem sequer foram julgados. Outros 13, como o projeto executivo para o trecho Ana Rosa/Ipiranga da Linha 2 Verde, que custou ao menos R$ 143,6 milhes, foram considerados regulares pelo tribunal.

A Polcia Federal pretende usar as informaes contidas nos procedimentos do TCE para complementar um inqurito que investiga as fraudes cometidas pelas 18 empresas participantes do cartel, que teria abastecido um propinoduto que percorreu as gestes do PSDB em So Paulo nos ltimos 20 anos. H trs semanas ISTO j havia revelado com exclusividade anlises do Tribunal de Contas do tEstado de So Paulo que alertavam as autoridades paulistas sobre a existncia de superfaturamentos e direcionamento de contratos. Apesar dos avisos, as tramoias nos certames continuaram a ocorrer. A auditoria do tribunal, em diversos casos de contratos, mostrou que no havia competio entre as empresas, disse o presidente do tribunal, Antnio Roque Citadini. Diante desses novos fatos, os contratos que j foram julgados regulares podem ser reabertos para nova anlise, afirma Citadini.

O Ministrio Pblico Federal tambm aprofunda as investigaes sobre o escndalo do Metr em So Paulo. Desde que a PF realizou, em 4 de julho, a operao Linha Cruzada, o MPF tenta sem xito ter acesso ao material recolhido. Os requerimentos encontram-se parados na Justia h mais de um ms  espera de uma deciso. De acordo com a procuradora da Repblica, Karen Louise Jeanette Kahn, o compartilhamento  necessrio para que haja uma fora-tarefa na investigao. Essa troca de informaes  condio bsica para que o trabalho avance de forma mais rpida e os ilcitos detectados sejam punidos, analisa Karen.


5. A ESCAPADA PELOS ANDES
ISTO revela os bastidores da fuga que constrangeu o Pas e provocou a troca de comando no Itamaraty. Como foi a aventura do embaixador brasileiro e do senador boliviano, que saram da embaixada em La Paz e atravessaram a fronteira 
Claudio Dantas Sequeira, Izabelle Torres e Josie Jeronimo

PROTAGONISTAS - O ento chanceler Antonio Patriota, o embaixador Eduardo Saboia e o senador boliviano Roger Pinto Molina (da esq. para a dir.) envolveram-se na rumorosa fuga

La Paz, sexta-feira 23 de agosto, 15h. O sol a pino e a baixa umidade reforam a sensao trmica da primavera boliviana e embalam a tradicional sesta local. No horrio em que boa parte dos moradores est cochilando, as ruas livres do trfego servem como corredor de fuga a dois veculos 4x4 Nissan Patrol, com placas diplomticas. A bordo de um deles, o senador boliviano Roger Pinto Molina confere o relgio e olha para o alto com um leve sorriso de satisfao. Foi a primeira vez que pude ver o sol claramente. E de uma perspectiva diferente, lembra, em referncia aos 454 dias que passou asilado numa pequena sala da embaixada do Brasil. Durante esse tempo, Molina jamais teve direito a um salvo-conduto, documento legal que poderia ter sido fornecido pelo governo boliviano para garantir sua sada com tranquilidade em direo ao pas no qual decidiu se refugiar. Planejada ao longo de trs meses, com o conhecimento de algumas autoridades do governo brasileiro e uma mal disfarada tolerncia do governo do presidente Evo Morales, que enviou vrios sinais a Braslia de que no faria oposio  sada de Molina, desde que no pudesse ser acusado de proteger um inimigo com 22 processos no currculo, a operacin libertad foi cercada de uma srie de preparativos, inclusive medidas de proteo pessoal e monitoramento de riscos. No momento em que se preparava para entrar no automvel, Molina contou com o auxlio de um fuzileiro naval, adido militar na embaixada, para vestir o colete  prova de balas.

Trs dias antes de partir, Roger Molina falou do plano de fuga  sua filha Denise Pinto Bardales, carinhosamente chamada pelo pai de Talita, sugerindo que ela fosse para Brasileia, no Acre, onde a me, Blanca, vive h um ano com as outras duas filhas do senador, um genro e quatro netos menores de idade. Num gesto revelador das relaes prximas entre autoridades dos dois pases, a famlia Molina foi abrigada no Brasil pelo governador Tio Viana (PT/AC), seu amigo. Alm de Talita, sabiam da operacin libertad o embaixador Marcelo Biato, o conselheiro Manuel Montenegro e o encarregado de negcios da embaixada Eduardo Saboia, que assumiu a responsabilidade pela fase final da operao, que era retirar Molina da Bolvia e lev-lo, so e salvo, para o Brasil. H pelo menos um ms, a operao chegou aos ouvidos de polticos, advogados e empresrios que partilham informaes e interesses nas relaes entre Brasil e Bolvia. Um plano alternativo chegou a ser elaborado, na verdade, envolvendo uma operao triangular. Numa primeira etapa, Molina seria levado de avio para o Peru. Depois, seria conduzido ao Brasil. Ao verificar que o envolvimento de um pas que nada tinha a ver o caso poderia ampliar as complicaes de um plano j complicado, decidiu-se pela viagem de automvel entre La Paz e Corumb.

Escondidos na neblina Na segunda-feira 19, num gesto que seus superiores no Itamaraty interpretariam como bisonha tentativa de despistar sua participao na operao, o embaixador Biato saiu de frias e coube a Saboia organizar todos os detalhes finais e fazer a viagem. Na quinta-feira 22, dia anterior  fuga, Molina recebeu a visita de um mdico do Senado boliviano, que produziu um laudo atestando que ele enfrentava problemas de sade, inclusive depresso. Substituindo Biato em sua ausncia, naquele mesmo dia, Eduardo Saboia enviou uma cpia do laudo para o Itamaraty e, no mesmo despacho, observou que a situao pedia uma interveno sem demora em auxlio do senador, afirmao vista como uma senha para o incio da operacin libertad.

Ao deixar, na sexta-feira 23, a garagem do edifcio Multicentro, complexo empresarial onde funciona a sede diplomtica brasileira, o comboio seguiu em velocidade pela avenida Arce rumo  autopista El Alto, na sada da capital boliviana. A orientao era fazer meia-volta e retornar  embaixada ao menor sinal de que autoridades bolivianas pretendessem criar embaraos ao comboio. Lembrando que chegou a passar mal no trajeto, Molina conta: Se eu fosse para um hospital, corria o risco de ser preso. Ento decidimos seguir. Depois de seis horas de estrada, o grupo chegou a Cochabamba, na regio do Chapare, uma das principais bases eleitorais do presidente Evo Morales. Ali, milhares de famlias de agricultores plantam a folha da coca, tradicional ingrediente da cultura boliviana, que em grande parte  desviada para servir ao narcotrfico. Em Cochabamba, a avenida Blanco Galindo corta a cidade. O comboio levou trs horas para atravessar a regio, sob neblina espessa. A tenso no deixava ningum cochilar. Se fossemos detidos ali, seria a morte ou algo parecido, afirma o senador. Em mais de um contato com o governo brasileiro, quando enviou uma emissria em audincia com o ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo, o governo de Evo Morales j havia deixado claro que gostaria de ver Roger Molina fora do Pas, desde que jamais pudesse ser acusado por seus prprios eleitores de proteger um poltico acusado de corrupo pela Justia.  loucura!, reagiu Dilma ao ser consultada sobre a operao, deixando claro que o Brasil no poderia aceitar uma proposta que no tinha garantia contra riscos, inclusive possveis ameaas  vida de Molina. Convencida de que o governo brasileiro fizera sua parte, ao garantir asilo para o senador boliviano, Dilma esperava que, incomodado com o desgaste que Molina causava a Morales, este tomasse a nica medida cabvel, que era dar o salvo-conduto.

Fugitivos de fraldas Pano de fundo daquela viagem dramtica, as relaes entre Dilma e Evo Morales atingiram um momento especial quando ambos se encontraram durante uma viagem  frica. Evo pediu uma bilateral  presidenta brasileira e aproveitou o encontro para denunciar que o senador estava tendo um comportamento inapropriado, chegando a fazer reunies polticas. Em seguida, Dilma determinou ao chanceler Antonio Patriota que verificasse as queixas de Morales, pedindo ao ministro que se encarregasse pessoalmente de resolver o caso com as autoridades bolivianas. Quando Patriota lhe disse que pretendia escolher um responsvel para tocar a misso, Dilma reagiu de forma dura, conforme relatou um assessor palaciano: Voc deve cuidar de tudo pessoalmente.

SUSTO NA FRONTEIRA - A polcia boliviana parou a comitiva e solicitou documentos. Atemorizado, o senador Roger Pinto pensou em sair correndo a p do carro

s 4h30 da madrugada do sbado 24, j em Santa Cruz de La Sierra, o comboio fez uma parada tcnica para esticar as pernas. Antes e depois, o combinado era seguir caminho de qualquer maneira. Para no perder tempo com refeies, levaram-se garrafas de gua mineral, barras de cereais, frutas e biscoitos. Para no irem ao banheiro, usavam fraldas geritricas. Antes do amanhecer, j estavam na estrada rumo a Puerto Suarez. Percorreram mais 660 quilmetros pela Rodovia 4, cruzando San Jos de Iquitos e outros trs pequenos municpios. Na rota de sada do territrio boliviano, passaram por cerca de 12 postos de controle, chamados trancas. A cada parada, o motorista no veculo da frente identificava o comboio diplomtico: Estamos em misso diplomtica, deixem-nos passar. Os viajantes jamais foram submetidos a qualquer controle que, mesmo em operao de rotina, poderia detectar alguma falha nos documentos portados pelo senador, poltico conhecido no pas inteiro.

TERRITRIO INIMIGO - O momento mais difcil e perigoso da fuga ocorreu quando a comitiva passou por Chapare (foto), regio cocaleira dominada por aliados de Evo Morales 

Perto das 12h30, o grupo chegou a Puerto Suarez, fronteira com Corumb. A luz amarela intermitente no painel do veculo alertava para o baixssimo nvel de combustvel. Foi ento que Saboia, catlico praticante, abriu a Bblia em Salmos e rezou baixo com Molina, evanglico. A tenso aumentou ao pararem no ltimo posto policial na fronteira boliviana. Embora Saboia tivesse plena cincia do interesse de Morales em permitir que Molina deixasse o pas, havia o temor de um imprevisto. Se o primeiro carro fosse bloqueado, teramos que jogar o nosso no acostamento e passar. Ou eu desceria e sairia correndo para cruzar a fronteira a p, revelou o senador boliviano. Aps o trajeto de 22 horas, Molina disse, como um desabafo: Senti um conforto emocional muito grande, aps tanta presso durante 22 horas e meia e 1,6 mil quilmetros. Foram momentos dramticos e emocionantes, desabafou Molina.

Cercados no hotel Minutos depois, j no Brasil, eles tiveram que fazer outra parada, desta vez no posto da Polcia Federal. Estavam em Corumb. Dois policiais fardados pediram que Saboia e Molina aguardassem no interior do veculo, enquanto eles faziam algumas ligaes. Cerca de 40 minutos depois, cinco policiais  paisana chegaram ao local. Cumprimentaram a todos e disseram ter ordens superiores para fazer a escolta do grupo. Apreensivos e bastante cansados da tenso da viagem, Molina e seus acompanhantes receberam um tratamento regular, diante das circunstncias. Foram levados ao hotel Santa Mnica. Ainda no carro, Molina ligou para o senador Ricardo Ferrao (PMDB/ES), presidente da Comisso de Relaes Exteriores, que almoava despreocupadamente com a esposa em sua casa, em Vitria (ES). Ao atender, Ferrao ouviu Molina gritar do outro lado da linha. Estou no Brasil! Necessito de ajuda para chegar a Braslia. Ferrao primeiro tentou contato com o presidente do Senado, o peemedebista Renan Calheiros (AL). A ideia era dar um carter mais oficial  acolhida de Roger Molina. Vai que ele oferece um avio da FAB? Era uma questo humanitria, diz. Sem conseguir falar com Renan, ele procurou empresrios e, duas horas depois, conseguiu um avio para levar o senador at a Capital Federal.

s 14 horas do sbado 24, o senador Molina adentrou ao hotel com Saboia e o resto do comboio. Foi direto para seus aposentos, no quarto andar. Os prprios policiais fizeram o check-in. Numa medida para evitar a presena de desconhecidos e monitorar o que se passava no quarto do senador, bloquearam todos os apartamentos daquele andar. O boliviano tomou um banho, trocou de roupa e tirou uma foto com celular. Anexou a imagem a um SMS que enviou para a filha. Cheguei em Corumb. Avise a todos que estou bem! Funcionrios do hotel ouvidos por ISTO afirmam que o trnsito de autoridades na fronteira  comum. Por isso no suspeitaram da misso at o fim da tarde, quando um ministro ligou querendo falar com Saboia. 

 O prefeito de Corumb, Paulo Duarte (PT), foi acionado no incio da noite. O primeiro contato partiu do Itamaraty, o segundo de uma autoridade que ele prefere proteger. Pediram que eu descobrisse se algum com o nome de Roger Pinto Molina havia entrado em algum hospital da cidade, relata. Funcionrios da Secretaria de Sade do municpio foram tirados de casa para fazer a varredura. Como no acharam ningum, tentaram os hotis. O Santa Mnica foi a primeira opo. Ao comunicar que havia encontrado Molina, Duarte foi orientado a achar um mdico de confiana para examin-lo. O mdico encontrou o senador boliviano com um quadro agudo de desidratao e taquicardia. Ele foi medicado e orientado a repousar.

s 20h, Ferrao desembarcou no aeroporto local. Seguiram-se, ento, novos momentos de tenso. Pelo que ficara combinado, era nesse horrio que ele deveria resgatar Molina. No encontrou ningum e ligou para o senador. Tentou tambm o diplomata Eduardo Saboia, mas ambos estavam incomunicveis. Foram horas de preocupao. No sabia o que ia acontecer, afirmou Ferrao. Uma hora depois, um agente da PF chegou ao aeroporto e avisou ao senador que ia buscar Molina. s 22h, os agentes da PF montaram guarda na recepo do hotel, para impedir movimentos de entrada e sada, ao que ficou registrada nas cmeras de circuito interno de tev do hotel. 

Conselhos do governador No aeroporto, Saboia e Roger Molina se despediram dos policiais e embarcaram. Estou aliviado em estarmos no Brasil. S estou preocupado com a minha famlia, que ficou na Bolvia, afirmou um emocionado Saboia a Ferrao. A esposa de Saboia tambm  diplomata, lotada em Santa Cruz, e estava em casa com o filho. No trajeto, os dois contaram a Ferrao que o ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo, havia telefonado para o ministro da Sade, Alexandre Padilha, pedindo que um mdico credenciado pelo Sistema nico de Sade (SUS) fosse at o hotel atender Molina. Era 1h20 quando o avio desembarcou em Braslia. O senador boliviano pediu, ento, para que o carro oficial do senador Ferrao o levasse para a casa do advogado Fernando Tibrcio, que possui vrios contatos com a oposio boliviana.  amigo, inclusive, do empresrio Tito Quiroga, que j foi candidato a presidente e  adversrio de Evo Morales. Um pouco depois, Molina deu um longo depoimento ao documentarista Dado Galvo, que se aproximou de integrantes da oposio ao governo Dilma durante a patrulha petista contra a dissidente cubana Yoani Snchez.

Ao descobrir que diplomatas brasileiros organizaram um plano que ela havia condenado de forma clara e definitiva, a presidenta demitiu Antonio Patriota de um cargo que ele conseguia conservar com dificuldades imensas, apesar da vitria indita representada pela conquista da direo geral da Organizao Mundial de Comrcio por um candidato brasileiro. Submetido a uma investigao para apurar suas responsabilidades, o prprio Saboia foi removido de seu posto em La Paz e, em qualquer caso, s poderia contar com oportunidades de promoo na carreira em nova combinao poltica. O destino do senador Roger Molina parece encaminhado para que ele permanea no Pas, desde que tenha disposio para manter uma postura discreta, longe de manifestaes polticas, comportamento que se costuma pedir a quem pretende assumir a condio de refugiado. Foi por essa razo que, aps conselhos do senador Jorge Vianna (PT-AC), ele cancelou depoimentos pblicos nos quais seria chamado a criticar Evo Morales e, por tabela, fazer referncias negativas  diplomacia do governo Dilma.

